Amor em Guerra - Capítulo 1
Era sábado.
Final de semana naquela casa nunca significava descanso.
O sábado ali dentro tinha gosto de coisa requentada. Um dia que prometia descanso, mas sempre entregava tensão. Era como se a casa soubesse que ninguém ali estava realmente bem, e resolvesse lembrar disso o tempo todo. Até o ar parecia mais pesado, mais difícil de respirar.
Eu tava jogado no sofá da sala, de óculos tortos no rosto, tentando me concentrar em qualquer coisa que não fosse o clima pesado dali. A TV tava ligada, mas ninguém realmente assistia. Minha mãe mexia no celular, Juliano: meu irmão mais novo, fazia um trabalho de escolha no chão, e ele… bom, ele fazia o que sempre fazia.
Até que chegou a pessoa que eu mais odeio nesse mundo...
— você vai ficar o dia inteiro assim? — a voz do meu padrasto cortou o silêncio como uma lâmina.
Nem levantei os olhos de primeira. Já sabia que não adiantava.
— assim como? — perguntei, fingindo calma.
— deitado feito um inútil — ele bufou — homem da sua idade já devia tá trabalhando, jogando bola, fazendo alguma coisa útil.
Juliano parou de escrever. O lápis ficou suspenso no ar por alguns segundos antes de ele baixar a cabeça de novo. Eu conhecia aquele gesto. Era o jeito dele de fingir que não estava ouvindo, mesmo ouvindo tudo. O mesmo jeito que eu usava quando tinha a idade dele.
Minha mãe ouviu, mas como sempre... fingiu que não era com ela.
Respirei fundo. Eu sempre respirava fundo.
— eu estudo, lembra? — respondi — e é sábado.
Ele riu, aquele riso torto, carregado de deboche.
— estuda demais e vive pouco. Não sai com garota nenhuma, não gosta de futebol… — ele me olhou de cima a baixo — fica difícil defender.
Senti o estômago revirar. Ele sempre vinha com esses comentários sugestivos pra cima de mim.
— eu não preciso ser igual a você — falei, já sentindo a raiva subir.
Foi aí que ele fechou a cara dele ainda mais. Um homem do tamanho dele deveria me dar medo, acho que em qualquer um... mas não, ele não me dá medo... mas repulsa. Vontade de socar a cara dele até tirar sangue.
— não precisa mesmo — disse, chegando perto — ainda bem. Porque desse jeito aí… — ele fez um gesto vago com a mão — parece mais um viadinho.
O tempo parou.
Minha mãe continuou olhando pro celular.
Juliano ficou quieto. Ele simplesmente morria de medo do próprio pai, eu não o julgo... eu não podia culpá-lo por isso.
Alguma coisa dentro de mim quebrou.
Aquela palavra não era nova. Já tinha ouvido antes, na rua, na escola, até em tom de piada. Mas dita ali, dentro da minha casa, pela boca de quem deveria ser um adulto responsável… ela pesou diferente. Pesou como sentença.... como se ele tivesse acabado de decidir quem eu era, sem nunca ter perguntado.
ㅡ você não vai dizer nada? ㅡ olhei pra minha mãe, seu olhar era vazio.
ㅡ ela não tem que dizer nada! Acho melhor você baixar sua bola moleque.
Ele segurou meus braços com força, os dedos afundando na minha pele. Fiquei parado, encarando ele, sem coragem de reagir. Quando me largou, o braço ainda ardia.
Saiu andando para o seu quarto, onde ele costumar ficar sempre.
Continuei no sofá, eu ajeitei os óculos no rosto pela milésima vez. Eles sempre escorregavam quando eu ficava nervoso o que, naquela casa, acontecia com uma frequência assustadora. Meu reflexo apagado na TV mostrava o mesmo de sempre: magro demais pro gosto do meu padrasto, alto o suficiente pra ele implicar, com o cabelo escuro caindo nos olhos claros que muita gente insistia em dizer que eram verdes… outros juravam que puxavam pro azul. Eu nunca soube.
Às vezes eu me perguntava se eu realmente era o problema ou se só tinha nascido no lugar errado. Porque fora dali, com meus amigos, eu ria fácil. Dentro daquela casa, parecia que até existir era errado.
Os brincos nas orelhas também nunca ajudaram muito a minha causa. Segundo ele, aquilo não combinava com “homem de verdade”. Segundo eu, combinava comigo, e isso já bastava.
Eu tinha dezoito anos, mas às vezes parecia ter muito mais ou muito menos. Dependia do dia. Dependia de quem estava falando comigo, em casa, eu ainda era o filho que não se encaixava direito. O irmão mais velho do Juliano, que fazia sua lição no chão da sala sem entender por que o clima ficava pesado do nada.
Eu até tentava levar tudo na esportiva. Sempre fui assim: piadista, amigável, fazendo graça pra aliviar o ambiente. Pelo menos na minha cabeça funcionava. Na prática… nem sempre.
ㅡ Ricardo... ㅡ minha mãe fez menção de vir até mim.
Mas eu me levantei antes.
ㅡ me deixa mãe.
ㅡ você tem que ter paciência garoto ㅡ é sério que ela tá dizendo isso pra mim?
ㅡ eu tenho que ter paciência, eu sou o seu filho mãe. Não uma marionete como você, sempre tão submissa daquele nojento, do que tem medo? ㅡ eu esbravejei, controlar as minhas emoções nunca foi o meu forte.
ㅡ você não entende...
ㅡ não mesmo, eu não te entendo. Não entendo porque deixa ele tratar o seu filho dessa forma, mesmo que eu fosse um "viadinho" isso não é da conta dele, nem da sua pra falar a verdade. Afinal você nunca se importou comigo mesmo. O dia que eu sair dessa casa pode ter certeza de que eu nunca mais vou voltar.
ㅡ você não vai embora, eu te conheço ㅡ ela parecia segura, mas eu vi o medo em seus olhos.
ㅡ eu tô farto de tudo isso aqui, é essa educação que você quer pro Juliano? ㅡ senti as minhas mãos trêmulas ㅡ eu tenho pena dele por ter um pai como aquele, tomara que ele nunca siga os passos dele.
Ela tentou falar alguma coisa, mas eu deixei ela sozinha e bati a porta do meu quarto... (bom o meu quarto com o do meu irmão), aquele verme não tem o direito de falar comigo daquele jeito.
Felizmente há pouco tempo descobri quem é o meu pai biológico. Por mais ausente que ele tenha sido... ele voltou, reconheceu que errou e está tentando mudar. Quem sou eu pra julgar ele? Lógico que dei uma chance pra ele, afinal não é todo dia que agente conhece nosso pai biológico que sumiu por quase dezoito anos hahahaha. Desculpe... isso é mais triste do que engraçado, enfim...
Meu padrasto parece não gostar de mim, aliás nunca deve ter gostado né... mas só que dessa vez ele passou dos limites.
Eu sou bissexual sigiloso na verdade, eu nunca tive coragem de contar isso pra ninguém ali dentro. Não porque eu tivesse vergonha de quem eu sou, mas porque sabia exatamente como seria recebido. Naquela casa, amor sempre vinha com condições e eu já tinha aprendido a sobreviver sem ele.
O que mais me chateia é que a minha mãe nem repreendeu ele, no fundo ela deve achar a mesma coisa, Vamos concordar que um menino, que nunca apresentou uma namorada, não fica muito com garotas e não gosta de futebol deixa meio que na duvida né.
Meu quarto era pequeno, mas era o único lugar daquela casa que ainda parecia meu. A cama bagunçada, os livros jogados num canto, o computador velho que funcionava quando queria. Me joguei na cama de barriga pra cima, encarando o teto manchado, tentando entender em que momento tudo tinha ficado tão pesado.
Será que o meu pai me aceitaria na casa dele? Tipo... eu sei que faz pouco tempo que a gente se conhece, mas e se?
A porta se abriu devagar.
ㅡ Ricardo… ㅡ a voz da minha mãe saiu baixa ㅡ você sabe que ele não quis dizer aquilo.
Virei o rosto pro lado, sentindo o nó se formar na garganta.
ㅡ ele sempre quer dizer ㅡ respondi — só muda a palavra.
Ela suspirou, como se o problema fosse o cansaço dela, não a dor minha.
ㅡ você precisa aprender a ignorar ㅡ disse, antes de sair e fechar a porta de novo.
ㅡ eu tô ignorando muita coisa Dona Regina ㅡ enfim chamei ela pelo nome ㅡ eu tenho ignorado o fato de você trazer esse homem pra dentro da nossa casa desde que eu era mais novo, eu tenho ignorado o fato dele sempre me tratar como se eu fosse uma aberração, eu tenho ignorado o fato da minha mãe ter se esquecido de mim por causa de um cara que não faz nada por ela. E tudo pra que? Pra viver essa vida de merda?
ㅡ olha como você fala garoto ㅡ ela me pareceu nervosa.
ㅡ e vai fazer o que? Regina. Me bater? Você nunca teve esse direito, nunca foi uma mãe de verdade pra mim, eu sempre tive que me virar sozinho.
ㅡ olha o jeito que você fala com a minha mulher moleque ㅡ logo em seguida aquele nojento apareceu no meu quarto.
ㅡ você é um ingrato ㅡ ela ainda se faz de vítima?
E ela ainda diz que eu tenho que ignorar. Era isso.
Foi ali que eu entendi que ninguém ia me defender. Que naquela casa eu sempre ia ter que engolir tudo sozinho. Sentei na cama, peguei o celular e fiquei olhando o nome salvo na agenda por alguns segundos.
“Pai”.
Engraçado como uma palavra tão simples podia pesar tanto.
Mas eu nem ligo, não nasci pra ser igual à ninguém. Peguei o telefone e falei em bom e alto tom.
ㅡ CANSEI! ESSA CASA ΤÁ ΜΕ DEIXANDO LOUCO, NINGUÉM ΜΕ ΑΡOIA, SÓ ME COLOCAM PARA BAIXO. PRA MIM JÁ CHEGA... QUER SABER, EU VOU MORAR COM O MEU PAI. MEU PAI DE VERDADE!
Os dois olharam surpresos para mim, ficou um climão, mas à essa altura eu não me importo com mais nada.
ㅡ você não vai fazer isso né? ㅡ minha mãe pareceu não acreditar, por mais que a surpresa estivesse em seus olhos.
Olhei bem pra ela, já é hora de tomar as minhas próprias decisões antes que eu acabe enlouquecendo com eles.
Meus dedos tremiam enquanto eu encarava o nome na tela. Não era só uma ligação. Era um pedido de socorro disfarçado de decisão. Se ele dissesse não… eu não sabia o que faria. Talvez nada. Talvez quebrasse de vez.
ㅡ não só vou, como estou fazendo ㅡ o telefone chamou e uma voz rouca e grossa atendeu.
ㅡ alô filho? Que supresa você me ligar ㅡ houve um silêncio por alguns segundos enquanto eu encarava eles na minha frente ㅡ tá acontecendo algo filhão?
Eu apenas respondi fitando eles dois...
ㅡ tá sim pai, vem me tirar desse inferno. Eu quero ir morar com o senhor! ㅡ exclamei com muita segurança, minha mãe estava incrédula e o meu padrasto eu nem preciso dizer... ele vai gostar mais disso do que eu...
Pela primeira vez em muito tempo, eu não me senti pequeno. Não forte ainda… mas inteiro, como alguém que finalmente decidiu se escolher.