Amor em Guerra - Capítulo 2

Conto de Leoh_martinez1 como (Seguir)

Eu devia ter uns nove… talvez dez anos. Nunca fui bom com datas, a minha memória sempre guardou mais o que doeu do que o quando.

A casa era menor naquela época. Ou talvez eu que fosse grande demais pra um lugar que nunca teve espaço pra mim, as paredes eram descascadas, o teto manchado de infiltração, e o cheiro… aquele cheiro de café velho misturado com cigarro que parecia nunca sair do ar.

Eu ficava sentado no chão do quarto, abraçado aos joelhos, ouvindo as vozes atravessarem a casa como trovões.

— VOCÊ NÃO PRESTA PRA NADA! — ele gritava.

Minha mãe respondia mais baixo. Sempre baixo. Como se tivesse medo até do próprio som.

— fala mais alto quando fala comigo! — ele exigia.

Eu tapava os ouvidos. Não adiantava, o som passava pelos dedos, pela pele, pelo peito... sempre passava.

Na escola, eu já tinha aprendido a ficar quieto. Criança quieta dá menos problema, diziam. Criança quieta também apanha menos, eu aprendi isso cedo demais. Nunca fui de brigar, de gritar, de correr como os outros meninos. Preferia desenhar no caderno, observar, inventar histórias na cabeça pra fugir dali.

Mas até isso parecia errado.

— menino esquisito… — ouvi uma vez ele dizer, achando que eu não estava ouvindo.

Eu estava.

Sempre estava.

Teve um dia em que cheguei da escola com a camiseta rasgada. Um garoto mais velho tinha me empurrado no pátio. Não reagi, nunca reagi, aprendi que reagir só piorava.

— por que você não bateu nele? — minha mãe perguntou.

Eu dei de ombros.

— eu não quis…

Ela suspirou. Aquele suspiro que dizia tudo sem dizer nada.

— você precisa aprender a se defender, Ricardo.

Mas ninguém nunca me ensinou como.

Teve uma vez que tentei pedir ajuda. Só uma vez. Disse que tinha medo, que não gostava de brigar, ele riu. Não alto… riu como quem desiste.

ㅡ isso é frescura. Homem não sente medo.

Foi ali que eu aprendi a engolir tudo sozinho.

À noite, eu ficava olhando pro teto, contando as manchas de umidade como se fossem estrelas. Imaginava como seria morar em outro lugar, um lugar onde eu não precisasse andar na ponta dos pés, onde meu silêncio não fosse confundido com fraqueza.

Eu tinha um carrinho velho embaixo da cama. Faltava uma roda, mas eu guardava mesmo assim. Era a única coisa que era só minha. Quando tudo ficava alto demais, eu segurava ele na mão, como se aquilo pudesse me proteger de alguma coisa.

Às vezes, eu pensava que se eu fosse diferente… se eu gostasse de futebol, se eu fosse mais alto, mais forte, mais “normal”.

Talvez ele gostasse de mim... talvez minha mãe me defendesse.

Mas eu já era eu.

E isso parecia ser o problema.

Uma noite, depois de mais uma discussão, ele entrou no quarto e me olhou como se eu fosse um erro.

— você dá trabalho demais — disse — devia ser mais como os outros.

Eu queria perguntar quais outros, mas fiquei quieto.

Engoli o choro, sempre engolia.

Naquele dia, eu prometi pra mim mesmo que nunca ia depender de ninguém, que nunca ia abaixar a cabeça pra quem me machucasse, que, quando crescesse, ia embora dali e nunca mais voltar.

Eu não sabia como, não sabia quando.

Mas sabia que sobreviver também era uma forma de resistência.

A lembrança se dissolveu devagar, como fumaça. E mesmo anos depois, o menino no chão do quarto ainda vivia dentro de mim.

Meu pai pareceu surpreso, mas aparentemente ficou muito feliz, e disse:

ㅡ meu filho que idéia ótima ㅡ ele disse meio incrédulo ㅡ mas e sua mãe... o que ela acha disso? Faz pouco tempo que eu cheguei na sua vida, não quero ser invasivo...

Dei um meio sorriso torto e respondei sem pensar muito...

ㅡ ela vai amar a idéia pai, é bom que ela se livra um pouco do "ovelha fresca" da família.

Ela e meu padrasto me olhavam, não dava pra saber o que eles sentiam naquele momento, se era raiva, choque, alívio... talvez tudo junto.

Implicar comigo o tempo todo deve ser ótimo né... por isso eles não querem que eu saia daqui. Do outro lado da linha, notei que a voz do meu pai mudou, parecia mais baixa. Preocupada.

ㅡ filho.... porque você disse isso? Tá tudo bem? ㅡ ele respirou fundo ㅡ aquele desgraçado do seu padrasto não encostou em você não né?

Para evitar confusão maior, eu engoli a verdade...

ㅡ não pai... ㅡ respondi ㅡ eu só quero morar com o senhor porque sempre senti a falta de um PAI ㅡ eu falei pai em bom tom pro meu padrasto sacar o que tava rolando.

Não era só provocação, era verdade. Era um pedido silencioso de socorro que eu fingia ser coragem.

ㅡ então tá decidido filhão ㅡ ele disse firme ㅡ eu vou embarcar hoje pro aeroporto e pela manhã chego aí ㅡ fez uma pausa ㅡ abraços, eu te amo filhão.

Meu peito apertou.

ㅡ eu também... pai...

Eu desliguei o telefone, teria que encarar aquelas feras, mas o que posso fazer? É uma escolha minha, já estou "grandinho demais" pra saber o que é bom ou não pra mim.

Meu padrasto saiu da sala, passou por mim me encarando e esbarrou em mim com força.

Quase cai, mas nem liguei. Gordo baranga daquele jeito, só servia pra ocuprar espaço mesmo.

Minha mãe veio em direção à mim. Tremi na base hahahaha, ela disse.

ㅡ precisava desse drama todo? Vê se age igual homem, não criei filho meu pra se fazer de vitima. Você quer ir, vai... o problema já não é mais meu.

Caralho!

Aquilo doeu mais que o empurrão.

Por que ela sempre agia assim? Tudo pra ela é frescura, quando fiquei depressivo por uma garota que eu amava, ela disse que era frescura, falta de "xereca" affs... isso só servia de motivo para eu querer sair dali.

Olhei bem pra ela, sentindo algo estranho crescer dentro de mim, uma coragem que eu não costumava ter. Dei um sorriso debochado, quase não me reconheci...

ㅡ que legal, já acabou Jéssica?

Nem vi direito, só senti a mão vindo no meu rosto e as seguintes palavras...

ㅡ me respeita seu moleque insolente.

Minha pele ardia, mas o que doeu mesmo foi perceber que aquilo não me surpreendeu. No fundo, eu sempre soube que, se tivesse que escolher, ela nunca me escolheria.

Saí dali com o rosto ardendo e o peito pesado. Raiva, tristeza. Tudo misturado, por que ela era assim? Por que essa raiva só porque eu quero ir morar com o meu pai?

Sinceramente não intendia o porque disso. Eu voltei pro meu quarto e vi Juliano lá, mexendo em seu celular.

Juliano tinha dezesseis anos. Um metro e sessenta e cinco, cabelo preto caindo nos olhos castanhos meio dourados, corpo forte pra idade e um sorriso bonito pra caralho. Não parecia em nada com aquele ogro que chamava de pai.

ㅡ Rick... eu escutei toda conversa, sempre quis me livrar de você, mas não dessa forma.

A gente riu.

ㅡ você tem mais é que ir mesmo. Desde que te conheço, tudo que é novo te chama. Vai ser estranho ficar aqui sem você, aturando essas duas peças… mas você precisa ir ㅡ ele respirou fundo ㅡ só não esquece que você tem eu como irmão, beleza?

Porra!

Aquilo quase me quebrou.

Juliano quase me fez chorar e me deu um abraço tão forte que quase me quebrou!

Enquanto ele me apertava, pensei no menino que eu fui. No chão do quarto, abraçando os próprios joelhos.

Talvez eu não tivesse tido um irmão naquela época… mas agora eu tinha.

ㅡ claro que não vou esquecer de você né cabeçudo hahahaha, vamos manter contato pelo whats e face, agora vem me ajuda a arrumar minhas coisas.

Arrumamos a mala e ele disse que ia tomar um banho eu disse que tudo bem, quando ele entrou no chuveiro eu deitei na cama e pela primeira vez em muito tempo, eu dormi sem medo de acordar no mesmo lugar pra sempre.

𓂃 𓈒 ࣪ ˖ 💔 𓂃 𓈒 ࣪ ˖ 💔 𓂃 𓈒 ࣪ ˖

No dia seguinte só escutei alguém me berrando, era o Juliano...

ㅡ acorda bela adormecida, o seu pai chegou!

Puta que pariu!

Eu não dormi, eu hibernei.

Olhei no relógio e era 10 horas da manhã, tomei um banho, coloquei uma roupa. O juliano me ajudou e quando cheguei lá na sala, lá estava ele... o meu pai.

Nunca vi alguém tão parecido comigo em toda a minha vida.

Era como se eu estivesse olhando pra uma versão minha que teve escolhas diferentes, e pela primeira vez, eu pensei que talvez ainda desse tempo pra mim também.

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