Amor em Guerra - Capítulo 3

Conto de Leoh_martinez1 como (Seguir)

Eu tinha esquecido de como ele era bonitão.

Alexandre.

Trinta e sete anos que não pareciam nem de longe isso. Alto, devia ter uns um metro e noventa e dois, corpo forte, musculoso, postura de quem ocupa espaço sem precisar fazer esforço. Não usava barba, só um cavanhaque bem desenhado… igual ao meu. Cabelo preto, camisa social preta, calça branca e óculos escuros que davam aquele ar de mistério meio cafajeste charmoso.

Meu Deus quando ele tirou o óculos eu me arrepiei. Olhos idênticos ao meu.

Porra!

Não tinha mais dúvida nenhuma. Eu era filho dele. O perfume dele Malbec me atingiu em cheio, forte, marcante, quase inebriante. Ele me olhava com um meio sorriso no rosto, como se estivesse tentando gravar cada detalhe meu.

ㅡ então ㅡ disse abrindo os braços ㅡ vai ficar só me olhando ou vai me abraçar?

Fui correndo abraçar ele,que quase me me quebrou hahaahahaa.

ㅡ caralho... ㅡ ele riu ㅡ você é real mesmo.

Fico pensando como minha mãe trocou ele por um cachaceiro, feioso e um tranqueira igual meu padrasto. Ela vivia dizendo que ele era hippie e não tomava banho. Vai entender.

Ele também abraçou Juliano e trouxe um presente pra ele, uma camiseta Pollo novinha, ele quase teve um troço.

Juliano amava camisas Pollo, ele roubava todas as minhas hahahah.

ㅡ agora você tem uma só sua! ㅡ exclamei rindo.

Enfim chegou a hora de partir...

Me despedi da minha mãe. Vi como ela tava meia triste, parecia perdida. Não trocou uma palavra com o meu pai, mas eu notei que ela não tirou os olhos dele. Depois só dei um aperto de mão no ogro que parecia tá com medo do meu pai.

Chegou na vez de Juliano, ele não conseguia esconder as lágrimas e disse...

ㅡ Rick não se esquece de mim não ok?

ㅡ claro que não mano. Toma ㅡ entreguei minha pulseira pra ele.

Ele amava aquela pulseira.

ㅡ guarda ela pra mim Juliano. Guarde ela com sua vida... ㅡ respirei fundo ㅡ e meus desenhos lá no quarto são todos seus.

Sim eu desenhava, Juliano amava todos os meus desenhos. Vi seus olhos brilharem quando disse que eram todos dele.

ㅡ vai, antes que eu chore mais ㅡ ele disse, rindo e chorando ao mesmo tempo.

Dei um abraço forte nele.

Quando me afastei da minha mãe, algo dentro de mim travou.

Ela não chorou.

Não gritou.

Não correu atrás.

Só ficou ali, parada, com aquele olhar vazio, como se estivesse me entregando junto com uma mala.

Esperei. Por qualquer coisa.

Um “fica”.

Um “não vai”.

Um “a gente dá um jeito”.

Nada.

Foi aí que a ficha caiu. Ela não lutou por mim.

Enquanto eu caminhava até o portão, cada passo parecia mais pesado. Não porque eu não queria ir… mas porque eu percebi que, se dependesse dela, eu sempre teria ído embora mesmo.

Lembrei das vezes em que fiquei quieto pra não causar briga. Das vezes em que engoli o choro pra não dar trabalho... de quando eu achei que, se eu fosse mais obediente, mais calado, mais fácil… ela escolheria ficar do meu lado.

Nunca escolheu. Ela deixou.

Deixou o padrasto gritar, deixou ele me diminuir, deixou eu aprender cedo demais a me virar sozinho.

E agora, deixava eu ir embora também.

Não era abandono escancarado. Era pior.

Era desistência.

Entrei no táxi sem olhar pra trás. Se eu olhasse, eu ia quebrar e eu já tinha aprendido que ninguém conserta quando eu quebro.

Quando a porta bateu, senti um nó subir na garganta. Engoli seco, não ia chorar ali, não ia dar esse gostinho . Se ela não lutou por mim…

então, a partir daquele momento, eu lutaria sozinho.

Chegamos no aeroporto. Pegamos nossas passagens e entramos no avião, tudo parecia rápido demais, sentei ao lado do meu pai, quando eu ia colocar meus fones ele puxou de leve...

ㅡ não senhor ㅡ sorriu ㅡ vamos passar a viagem conversando e nos conhecendo.

Dei um riso bobo e guardei meu celular pra conversar. Fiquei olhando pra frente, sem saber muito bem o que dizer. O silêncio não era ruim… só era estranho. Nunca tive alguém que quisesse conversar comigo daquele jeito.

Meu pai me olhou de canto, deu um meio sorriso e perguntou:

ㅡ então… você gosta de quê, Rick?

Engoli seco.

ㅡ ah… eu desenho. Gosto de música também. Mais calma ㅡ dei de ombros ㅡ e você?

Ele riu, um riso leve, diferente de tudo que eu conhecia.

ㅡ Eu gosto de ouvir as pessoas. Acho que perdi tempo demais sem te ouvir.

Aquilo me acertou em cheio.

Fiquei quieto por alguns segundos, até criar coragem...

ㅡ por que você demorou tanto?

Ele suspirou fundo, apoiou o braço no encosto e me olhou sério, mas com um carinho absurdo no olhar.

ㅡ porque eu fui fraco. Achei que sua mãe não queria confusão, achei que você tava bem… e eu errei ㅡ ele fez uma pausa ㅡ todo dia eu pensei em você. Todo dia.

Meu peito apertou.

ㅡ eu cresci achando que não fazia falta pra ninguém — falei baixo, quase um sussurro.

Ele virou o corpo na minha direção na hora.

ㅡ ei ㅡ segurou meu queixo com cuidado ㅡ nunca mais pensa isso. Você faz falta pra mim desde o dia em que nasceu.

Pronto. Ali eu quase chorei.

Ele passou a mão pelo meu cabelo, daquele jeito simples, automático… como se já tivesse feito isso mil vezes.

ㅡ você não precisa ser forte comigo, Rick. Aqui você pode descansar.

Foi ali que desabei por dentro.

Encostei devagar no peito dele, sentindo o cheiro do perfume misturado com algo que era só… segurança. Ele me envolveu com o braço, firme, presente. Não era um abraço de despedida. Era de permanência.

ㅡ dorme ㅡ ele murmurou ㅡ eu tô aqui.

O barulho do avião foi ficando distante… tudo ficou meio lento, meio borrado.

No sonho, eu era pequeno. Uns seis, talvez sete anos. A casa parecia maior naquela época, as paredes mais altas, o corredor mais comprido. O cheiro era de café velho e cigarro.

Eu estava no quarto da minha mãe, mexendo numa caixa em cima do guarda-roupa. Não devia estar ali. Eu sabia disso. Mas algo me puxava.

Entre papéis amarelados e coisas sem importância, tinha uma foto.

Parei.

Na foto, um homem alto, sorrindo, com um braço envolta da cintura da minha mãe. Ele usava óculos escuros e tinha aquele mesmo sorriso fácil… o mesmo que eu tinha visto horas antes.

Meu coraçãozinho infantil disparou.

Peguei a foto com cuidado, como se ela pudesse quebrar.

ㅡ mãe? ㅡ chamei, saindo do quarto com a foto na mão.

Ela apareceu na porta da cozinha, secando as mãos no pano.

ㅡ o que foi agora, menino?

Levantei a foto pra ela.

ㅡ quem é esse homem?

O sorriso dela morreu na hora.

Ela veio rápido, arrancou a foto da minha mão como se queimasse.

ㅡ onde você achou isso?

ㅡ no seu quarto… ㅡ respondi baixo ㅡ ele é meu pai?

Silêncio.

Ela bufou, revirou os olhos, jogou a foto de volta na caixa e empurrou pra longe.

ㅡ isso não é assunto pra criança.

ㅡ mas mãe… ele parece comigo.

Ela se virou, impaciente.

ㅡ parece nada. Para de inventar coisa na sua cabeça.

Senti algo estranho no peito, uma mistura de confusão e vergonha.

ㅡ todo mundo na escola tem pai… ㅡ falei quase chorando ㅡ por que eu não tenho?

Ela fechou a cara.

ㅡ porque ele foi embora. Simples assim — fez um gesto de desprezo ㅡ um homem irresponsável que não queria nada com nada. Esquece isso.

ㅡ ele não gostava de mim?

A pergunta saiu sem eu perceber.

Ela suspirou, cansada.

ㅡ chega, Ricardo. Você tá arrumando problema onde não existe.

Ela saiu, me deixando sozinho no corredor, segurando um vazio que eu nem sabia nomear.

No sonho, eu olhava pra foto de novo. O homem sorria pra mim… como se quisesse dizer alguma coisa, como se quisesse me pegar no colo.

Mas eu acordei antes.

O sonho se dissolveu devagar… e eu me mexi, sentindo algo quente ao redor de mim.

O braço do meu pai.

O peito dele subindo e descendo com a respiração calma.

Por um segundo, ainda meio dormindo, pensei "então você era real…"

E dessa vez, ele não tinha ido embora...

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